segunda-feira, 11 de abril de 2011

Amar/adorar a Deus é também ignorância

S. Nisargadatta Maharaj

Amar e adorar a Deus é também ignorância. Meu lar é além de todas as noções, não importa quão sublimes.

Deixe tudo para trás. Esqueça. Vá em frente, descarregado de idéias e crenças. Abandone todas as estruturas verbais, todas as verdades relativas, todos os objetivos tangíveis.

Veja o caso de uma criança pequena. O sentimento de'Eu Sou' ainda não está formado, a personalidade é rudimentar. Os obstáculos ao auto-conhecimento são poucos, mas o poder e a clareza da consciência, sua abertura e profundidade estão faltando. No curso dos anos a consciência se fortalecerá, mas também a personalidade latente emergirá e complicará. Da mesma maneira que quanto mais dura a madeira, mais quente a chama, quanto mais forte a personalidade, mais luz é gerada na sua destruição.

Saber que você não é nem o corpo nem a mente, mesmo que consciente dos dois, já é auto-conhecimento.

No Supremo, a testemunha aparece. A testemunha cria a pessoa e se imagina separada dela. A testemunha vê que a pessoa aparece na consciência, a qual novamente aparece na testemunha. A compreensão dessa unidade básica é o trabalho do Supremo. A fonte a partir da qual tudo flui é a potência por detrás da testemunha. Não pode ser contactado, a menos que haja unidade, amor e ajuda mútua entre a pessoa e a testemunha, a menos que o fazer esteja em harmonia com o ser e o saber. O Supremo é ambos - a fonte e o fruto - de tal harmonia. Enquanto falo com você, estou no estado de consciência desapegada mas afetuosa. Quando essa consciência se vira sobre si mesma, você pode chamar de Estado Supremo. Mas a realidade fundamental está além da consciência, além dos três estados de tornar-se, ser e não-ser.

Como posso pôr em palavras, exceto negando-as? Por essa razão, eu uso palavras como 'atemporal', 'aespacial', 'acausal'. Estas também são palavras, mas, como são vazias de significado, servem ao meu propósito. Porque você quer palavras onde palavras não se aplicam.

Apenas veja a pessoa que você imagina ser como parte do mundo que você percebe dentro da sua mente, e olhe a mente pelo lado de fora porque você não é a mente. Além do mais, seu único problema é a sua ânsia em se auto-identificar com o que quer que perceba. Desista desse hábito, lembre-se de que você não é o que você percebe, use a sua capacidade de ser indiferente e alerta. Veja a você mesmo em tudo que vive e seu comportamento expressará sua visão. Uma vez que você compreenda que não há nada nesse mundo que você possa chamar de seu, você olha para ele pelo lado de fora, como você olha uma peça em um palco ou um filme em uma tela, admirando e aproveitando, mas realmente imperturbável. Enquanto você se imaginar como sendo algo tangível e sólido, uma coisa entre outras coisas, existindo no tempo e no espaço, limitado e vulnerável, naturalmente você será ansioso por sobreviver e expandir. Mas quando você conhece a si mesmo como além do tempo e do espaço, em contato com eles apenas no ponto do aqui-e-agora, e além disso preenchendo tudo, contendo tudo, inacessível, inatacável, invulnerável, você não vai mais ter medo.

Ame a si mesmo sabiamente e você alcançará o topo da perfeição. Todos amam seu corpo, mas poucos amam seu ser verdadeiro. Seu ser verdadeiro é o amor em si mesmo, e seus muitos amores são seus reflexos de acordo com a situação do momento.

O estado de identidade é inerente à realidade, e nunca desaparece. Mas identidade não é nem a personalidade transitória, nem a individualidade presa ao karma. É aquilo que permanece quando toda auto-identificação é reconhecida como falsa - consciência pura, o sentimento de ser tudo que há, ou poderia ser. A conscência é pura no começo e pura no final; no intervalo ela é contaminada pela imaginação, a qual é a raiz da criação. Em qualquer tempo, a consciência permanece a mesma. Conhecê-la como ela é, é a realização e a paz intemporal.

Enquanto houver o corpo e um sentimento de identidade com ele, a frustração é inevitável. Apenas quando você conhece a si mesmo como inteiramente estranho ao corpo e diferente dele, você escontrará um alívio da mistura de medos e dos desejos que lhe consomem, inseparáveis da idéia 'Eu-sou-o-corpo'.

Ambas fé e razão lhe dizem que você não é nem o corpo, nem seus desejos e medos, nem você é a sua mente com suas idéias fantásticas, nem o seu papel social lhe compele a representar a pessoa que você supõe que é. Abandone o falso e o verdadeiro aparecerá por si mesmo.

Ação atrasada é ação abandonada. Podem haver outras chances para outras ações, mas o momento presente é perdido, irrecuperavelmente perdido. Toda preparação é para o futuro - você não pode se preparar para o presente.

Identificar-se com o particular é todo o pecado que existe. O impessoal é real, o pessoal aparece e desaparece. 'Eu Sou' é o Ser impessoal, 'Eu sou isto' é a pessoa. A pessoa é relativa, e o puro Ser fundamental.

Todos criam um mundo para si mesmos e vivem nele, aprisionados na própria ignorância. Tudo o que temos de fazer é negar realidade à nossa prisão.

Na realidade, os três são um: o vyakta ( ou o eu-interior) e o avyakta (o Ser Supremo) são inseparáveis, enquanto que o viakti (eu-exterior) é o processo de perceber-sentir-pensar. Como poderia haver alguma relação, se os dois são um? Toda essa discussão sobre separação e relação é devida à distorção e influência corruptora da idéia 'Eu-sou-o-corpo'. O eu-exterior (vyakti) é apenas uma projeção no corpo-mente do eu-interior (vyakta), o qual novamente é apenas uma expressão do Ser Supremo (avyakta), o qual é todos e nenhum.

A pessoa e a testemunha - ambos são modos de consciência. Em um, você deseja e teme; em outro, você não é afetado pelo prazer e pela dor, você não é abalado pelos eventos. Você os deixa ir e vir.

A natureza não é nem prazerosa nem dolorosa. Ela é toda inteligência e beleza. Dor e prazer estão na mente. Mude sua escala de valores, e tudo mudará. Prazer e dor são meras perturbações dos sentidos; trate-as igualmente, e haverá apenas bem-aventurança. E o mundo é o que você faz dele; faça-o feliz por todas as maneiras. Manter-se longe de todos os desejos e rejeições ao que vem por si mesmo é um estado muito frutífero, uma pré-condição ao estado de plenitude. Não desconfie de sua aparente esterilidade e vazio. Acredite em mim. É a satisfação dos desejos que dá a luz à miséria. Liberdade dos desejos é bem aventurança.

O que eu pareço ser para você existe apenas na sua mente. Eu sou um sonho que pode lhe acordar. Você terá a prova disso no momento em que despertar.

O universo é perfeito como um todo, e o crescimento das partes até à perfeição é um caminho de alegria. Voluntariamente sacrifique o imperfeito pelo perfeito, e não haverá mais discussões sobre o bem e o mal.

Como você sabe que não conhece o seu Self? Sua visão interior lhe diz que você conhece primeiro a você mesmo, porque nada existe sem você estar ali para testemunhar sua existência. Você imagina que não conhece a si mesmo, porque você não consegue descrever a si mesmo. Você pode apenas dizer: 'Eu sei que Eu Sou' e você recusará como não verdadeiro o argumento 'Eu não sou'. Mas o que quer que possa ser descrito não pode ser você mesmo, e o que você é não pode ser descrito. Você só pode conhecer o seu Ser sendo você mesmo, sem nenhuma tentativa de auto-descrição ou auto-definição. Uma vez que você tenha compreendido que você não é nada perceptível ou concebível, que o que quer que apareça no campo da consciência não pode ser você mesmo, você se aplicará na erradicação de toda auto-identificação, como o único caminho que pode levá-lo à profunda realização de si mesmo.

Mesmo que você seja completamente ignorante dos meios e caminhos, fique em silêncio e olhe para dentro; com certeza, um guia surgirá. Você nunca é deixado sem saber qual deveria ser seu próximo passo. O problema é que você pode refugar. O mestre está ali para lhe dar coragem por causa da sua experiência e sucesso. Mas apenas aquilo que você descobrir através da sua própria consciência, seu próprio esforço, será de uso permanente para você.

Desista de todas as perguntas, exceto uma: 'Quem sou Eu?'. Além do mais, o único fato do qual você pode estar certo é de que você É. O 'Eu Sou' é certo. O 'Eu Sou isso' não é. Lute para descobrir o que você é na realidade.

A inteligência é a porta para a liberdade, e atenção alerta é a mãe da inteligência.
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Santorini - Vangelis - Irene Papas "Menousis"

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