segunda-feira, 11 de março de 2013

Sinais do Absoluto

Um casal europeu visitou Maharaj por uma semana. Marido e esposa estiveram interessados na metafísica vedântica por muitos anos e tinham estudado profundamente o assunto. Havia neles, contudo, um toque de cansaço, quase de frustração, em seus pontos de vista e comportamento geral, o qual mostrava claramente o que foi posteriormente confirmado. Eles não tinham nenhuma compreensão clara da verdade a despeito da assídua busca por um longo período de tempo durante o qual tinham viajado intensamente, e tinham buscado orientação de numerosos Gurus, mas sem sucesso. Agora, estavam, talvez, perguntando-se se iam para outro exercício de futilidade e para mais frustração.

Depois de terem fornecido as informações sobre seus fundamentos em resposta à pergunta habitual de Maharaj, sentaram-se com indiferença. Maharaj olhou para eles por poucos momentos e disse: Por favor, entenda que eu não tenho nada para dar a vocês. Tudo o que faço é pôr diante de vocês um espelho espiritual para mostrar sua verdadeira natureza. Se o significado do que digo for entendido claramente, intuitivamente – não apenas de forma verbal –, e aceito com a mais profunda convicção e a mais urgente rapidez, não será mais necessário nenhum conhecimento. Este entendimento não é uma questão de tempo (de fato, é anterior ao conceito de tempo) e, quando ele acontece, acontece repentinamente, quase como um choque de compreensão atemporal. Efetivamente, isto significa uma repentina cessação do processo de duração, uma fração de segundo em que o funcionamento do próprio processo do tempo é suspenso – enquanto acontece a integração com o que é anterior à relatividade – e a apreensão absoluta ocorre. Uma vez que esta semente de compreensão tenha se enraizado, o processo de libertação relativa da escravidão imaginada pode seguir seu próprio curso, mas a apreensão em si mesma é sempre instantânea.

A palavra-chave no processo de entendimento do que digo é ‘espontaneidade’. A manifestação de todo o universo é como um sonho, um sonho cósmico, exatamente como o sonho microcósmico de um indivíduo. Todos os objetos são objetos sonhados, todos são aparições na consciência, tanto no caso de um sonho surgindo espontaneamente como um sonho pessoal durante o sono ou como o sonho vivente da vida no qual nós todos estamos sendo sonhados e vividos. Todos os objetos, todas as aparições são sonhadas na consciência pelos seres sensíveis.

Os seres sensíveis são, portanto, tanto figuras sonhadas como sonhadores; não há um sonhador individual, como tal. Cada sonho ativo do universo está na consciência, a qual está no interior de um aparato psicossomático particular, o meio através do qual o perceber e o interpretar ocorrem, e que é confundido com uma entidade individual. No sono profundo não há sonho e, portanto, nenhum universo. É apenas quando você usa a mente dividida que você existe separado dos ‘outros’ e do mundo.

Você não tem controle sobre os objetos em seu sonho pessoal, incluindo o objeto que ‘você’ é em seu sonho. Tudo é espontâneo e, ainda assim, cada um dos objetos em seu sonho pessoal não é senão você. No sonho que é a vida, também, todos os objetos (todos os ‘indivíduos’, mesmo se são opostos um ao outro no sonho) podem apenas ser o que-você-é. Todo funcionamento, toda ação na vida, portanto, pode ser apenas ação espontânea, pois não há nenhuma entidade a realizar qualquer ação. Você é (Eu sou) o funcionamento, o sonho, a dança cósmica de Shiva!

Finalmente, lembre-se que todo sonho de qualquer tipo deve necessariamente ser fenomênico – uma aparição na consciência –, ocorrido quando a consciência estiver ‘desperta’, que é quando a consciência é consciente de si mesma. Quando a consciência não é consciente de si mesma, não pode haver nenhum sonho, como no sono profundo.

Ao chegar neste ponto, o homem do casal tinha uma dúvida. Sua pergunta era: Se todos nós somos figuras sonhadas, sem qualquer escolha independente de decisão e ação, por que deveríamos preocupar-nos com escravidão e liberação? Por que deveríamos vir para Maharaj?

Maharaj riu e disse: Você parece ter chegado à conclusão correta pelo caminho errado! Se você quer dizer que agora está convencido, além de qualquer sombra de dúvida, que o objeto com o qual você havia se identificado é realmente apenas um fenômeno totalmente destituído de qualquer substância, independência ou autonomia – simplesmente uma aparição sonhada na consciência de outro alguém – e que, portanto, para uma simples sombra não pode haver qualquer problema de escravidão ou liberação, e que, consequentemente, não há necessidade de forma alguma de vir e ouvir-me, então você está perfeitamente certo. Se for assim, você não está apenas certo, mas já liberado! Mas, se você quer dizer que deve continuar a visitar-me apenas porque não pode aceitar que é uma mera figura sonhada, sem qualquer independência ou autonomia, então receio que nem mesmo deu o primeiro passo. E, de fato, desde que haja uma entidade buscando a liberação, ela nunca a encontrará.

Veja isto desta forma simples: Qual é a base de qualquer ação? A necessidade. Você come porque há uma necessidade disto; seu corpo evacua porque é necessário. Você me visita por causa da necessidade de visitar-me e escutar o que digo. Quando há a necessidade, a ação se segue espontaneamente sem qualquer intervenção de qualquer agente. Quem sente a necessidade? A consciência, certamente, sente a necessidade através da mediação do aparato psicossomático. Se você pensar que é este aparato, não é este o caso de identidade errada, assumindo a carga da escravidão e buscando a liberação? Mas na realidade o que pergunta, o buscador, é o buscado!

Uma calma absoluta reinou na salinha enquanto todos ponderavam sobre o que Maharaj havia dito. O casal visitante sentou com os olhos fechados, esquecido dos arredores, enquanto os demais visitantes, gradualmente, saiam.

"Sinais do Absoluto"

quarta-feira, 6 de março de 2013

Eu Sou Aquilo - N. Maharaj

Pergunta: Sou médico de profissão. Comecei com cirurgia, continuei com psiquiatria e também escrevi alguns livros sobre a saúde mental e a cura pela fé. Venho a você para aprender as leis da saúde espiritual.

Maharaj: Quando você tenta curar um paciente, o que tenta curar exatamente? O que é a cura? Quando você pode dizer que o homem está curado?

P: Eu procuro curar o corpo assim como melhorar a ligação entre o corpo e a mente. Também procuro colocar a mente em ordem.

M: Você investigou a conexão entre a mente e o corpo? A que ponto eles estão conectados?

P: A mente está entre o corpo e a consciência que o habita.

M: O corpo não é feito de alimentos? E pode existir uma mente sem alimento?

P: O corpo é construído e mantido pelo alimento. Sem alimento, a mente usualmente fica fraca. Mas a mente não é mero alimento. Há um fator transformador que cria a mente no corpo. O que é este fator transformador?

M: Assim como a madeira produz fogo que não é madeira, o corpo produz a mente que não é corpo. Mas a quem aparece a mente? Quem é o percebedor dos pensamentos e sentimentos que você denomina mente? Há madeira, há fogo e há o desfrutador do fogo. Quem aprecia a mente? O desfrutador é também um resultado do alimento, ou é independente?

terça-feira, 5 de março de 2013

Sinais do Absoluto - N. Maharaj

Neste ponto, a questão que permanece a ser tratada, a fim de fazer esta meditação razoavelmente completa em si mesma, é salientar a identidade essencial entre o não-manifesto e o manifesto, o númeno e o fenômeno, o Absoluto e o relativo, a presença e a ausência e, de fato, a identidade essencial de todos os opostos, ou contrapartidas, inter-relacionados. Todas estas posições representam os vários aspectos da mente (sendo a mente o conteúdo da consciência) que constituem o dualismo o qual é a base de toda a manifestação: o observador e o observado, o conhecedor e o conhecido. Como diz Maharaj, a apercepção da identidade básica dos opostos inter-relacionados significa ‘liberação’, pois, então, será entendido que o buscador é o buscado, que todas as distinções existem apenas na dualidade, e que, se os vários opostos inter-relacionados forem sobrepostos uns aos outros, resultariam na anulação dos opostos correspondentes, e, com isto, a da própria condição da dualidade, produzindo, assim, a unidade fundamental.

Talvez seja necessário repetir aqui que a consciência é manifestação e que a manifestação está na dualidade, mas esta dualidade é criada dentro da unicidade do Absoluto não-manifesto. A totalidade da manifestação não é algo projetado pela consciência quando entra em atividade; os vários objetos que constituem a manifestação não têm substância ou natureza própria senão a da consciência, a qual, em si mesma, é a percepção e o conhecimento dos fenômenos. O fato é que toda a manifestação, todo fenômeno, é aparência na consciência, percebida pela consciência, e conhecida por ela através da interpretação da mente. Se este fato for claramente percebido e entendido, poderá ver-se que a consciência é tanto o funcionamento que acontece quanto o seu percebimento – e nós (não os indivíduos, mas o ‘Eu’ eterno) somos este percebimento. A consciência em ação não pode ser diferente da consciência em repouso, a Consciência Absoluta, que é a totalidade do potencial completo. Em outras palavras, a consciência-manifestação é o aspecto objetivo da Consciência subjetiva.

Uma vez que a consciência se mova e a atividade comece, a manifestação e o funcionamento podem acontecer apenas em um estado de aparente dualidade. O ‘espaço’ é o aspecto estático do conceito de funcionamento: se não houvesse espaço, nenhum fenômeno com volume tridimensional poderia ser concebido. E o ‘tempo’ (duração) é o aspecto ativo do conceito de funcionamento: se não houvesse duração, os fenômenos concebidos no espaço não seriam perceptíveis. Não pode haver nem manifestação nem funcionamento (nem seres humanos nem fatos) na ausência do conceito dual de espaço e tempo, conhecido como ‘espaço-tempo’; e estes dois aspectos são separados apenas como conceito, mas perdem sua separação quando a concepção cessa. No sono profundo, por exemplo, espaço e tempo desaparecem e, com eles, toda a manifestação, pois a dualidade pode existir apenas na concepção. Paremos o pensamento e toda a dualidade desaparece.

Os fenômenos, em outras palavras, não podem ser concebidos sem o númeno, nem o númeno sem os fenômenos. (A própria idéia de númeno está, certamente, dentro da área da dualidade da concepção). Quando cessa a concepção, toda a dualidade chega ao fim. Quando a concepção cessa, não haverá nem fenômeno nem númeno, pois o que permanece é pura subjetividade – nenhuma experiência de qualquer tipo e ninguém a exigir alguma experiência! Expressando tudo isto em resumo: todas as contrapartidas inter-relacionadas são inevitavelmente separadas apenas como conceitos e, essencialmente, inseparáveis de qualquer forma.

Sinais do Absoluto - Nisargadatta Maharaj (Ramesh Balsekar)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Todo o seguir é um mal - Krishnamurti

PERGUNTA. Com certeza, senhor, apesar de tudo o que tendes falado a respeito do seguir, estais bem cônscio de que sois continuamente seguido. Como agis a esse respeito, já que isso segundo vós mesmo — é um mal?

KRISHNAMURTI: Senhores, nós sabemos que seguimos: seguimos o guia político, seguimos o guru, seguimos um padrão ou uma experiência. Toda nossa cultura e educação está baseada na imitação, na autoridade, no seguir.
Afirmo que todo o seguir é um mal, inclusive o seguir a mim próprio. O seguir é uma coisa maligna, destrutiva; e, entretanto, a mente segue, não é verdade? Ela segue Budha, segue Cristo, segue uma idéia, uma Utopia perfeita — porque a mente se acha num estado de incerteza, e quer a certeza. O seguir é uma exigência de certeza. Visto que exige a certeza, a mente está criando a autoridade — política, religiosa, ou a autoridade própria e está sempre a copiar; por conseguinte está lutando incessantemente. O seguidor jamais conhece a liberdade que há em não seguir. Só se pode estar livre, havendo incerteza e, não, quando a mente está a perseguir a certeza.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Boehme - Unidade

Franz Hartmann — Cristianismo Pessoal — Citações de Boehme

"Ouça, Ó homem cego! Vives em Deus e Deus está em ti. Se vives santamente, então sereis tu mesmo Deus, eonde quer que olhes, haverá Deus". (Aurora, XXII,46).

"Somos todos um só corpo em Cristo e todos temos o Espírito de Cristo ao nosso alcance. Se, portanto, penetrarmos o Cristo, poderemos ver e conhecer todas as coisas pelo poder de Seu Espírito". (Quarenta Questões…, XXVI. 5).

"Não posso descrever a totalidade da divindade como se fosse um círculo, porque Deus é imensurável; no entanto, a Divindade não é inconcebível ao espírito que repousa no amor de Deus. Tal espírito pode atingir a verdade eterna, de parte em parte e desta forma, acabará compreendendo a totalidade". (Aurora, X. 26).

"Se tenho que tornar compreensível a geração eterna, a revelação ou a evolução de Deus, fora de Seu próprio ser sou obrigado a usar uma maneira diabólica (sabidamente errônea), como se a Luz eterna tivesse se inflamado nas trevas, e como se a Divindade tivesse um princípio. Não posso instrui-los de outra forma, se pretendo que vocês adquiram uma concepção aproximada da Divindade. Não há nada primeiro e nada depois na geração e evolução, mas ao descrevê-la tenho que colocar uma coisa depois da outra". (Aurora, XXIII. 17-33).

"Não pretendo dizer que a Divindade teve um princípio; só desejo mostrar como a Divindade revelou-se através da natureza. Deus não tem princípio no tempo; Ele tem um princípio eterno e um fim eterno". (Assinatura…, III. 1).

"A Divindade é um laço eterno, que não pode perecer. Ela gera a si mesma de eternidade em eternidade, e o primeiro ali é sempre o último, e o último o primeiro". (Três Princípios…, VII. 14).

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A oração - Evágrio Pôntico

Oração, meditação ou contemplação

"Não imagines possuir a Divindade em ti, quando oras, nem deixes tua inteligência aceitar a marca de uma forma qualquer; mantém-te como imaterial diante do Imaterial e compreenderás"

"Não poderias possuir a oração pura, estando perturbado com coisas materiais e agitado por inquietações contínuas, pois a oração é abandono dos pensamentos"

"A oração é produto da doçura e da ausência de ira"

"Esforça-te por manter teu intelecto surdo e mudo durante a oração: assim poderás orar"

"Se oras verdadeiramente, sentirás uma grande segurança: os anjos te escoltarão como a Daniel e te iluminarão sobre as razões dos seres"

"Se queres orar como convém não entristeças nenhuma alma; senão, corres em vão"

"Bem-aventurada a inteligência que, no momento da oração, torna-se imaterial e despojada de tudo"

"A oração é uma ascenção da inteligência para Deus"

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O Presente da Águia

Cinco Proposições Explicativas

1 — O que percebemos como mundo são os comandos da Águia.

Dom Juan explicou que o mundo que percebemos não tem existência transcendental. Nossa familiaridade com ele nos leva a acreditar que o que percebemos é um mundo de objetos existentes como os percebemos, quando na verdade não há um mundo de objetos, mas sim um universo dos comandos da Águia.

Esses comandos representam a única realidade imutável. É uma realidade que engloba tudo o que existe, o perceptível e o não-perceptível, o conhecível e o não conhecível.

Os observadores que vêem as emanações da Águia chamam-nas de comandos por causa da sua força compulsória. Todas as criaturas vivas são compelidas a usar as emanações, e usam-nas sem nunca saberem o que elas significam. O homem padrão interpreta-as como realidade. E os observadores que vêem as emanações interpretam-nas como o regulamento.

Apesar dos observadores verem as emanações, não há um meio deles saberem o que estão vendo. Ao invés de entrarem em conjeturas supérfluas, entram numa especulação funcional de como os comandos da Águia podem ser interpretados. Dom Juan insistia em dizer que ao intuirmos uma realidade que transcende o mundo percebemos remanescentes a nível de conjeturas, não é suficiente resumir que os comandos da Águia são percebidos de uma vez só por todas as criaturas vivas da terra e que não há uma criatura que perceba igual à outra. Os guerreiros devem ter como objetivo presenciar o fluxo das emanações e ver como o homem e os outros seres vivos usam-nas para construir seu mundo perceptível.

Quando eu propus o uso da palavra “descrição” em vez de comandos da Águia, Dom Juan esclareceu que não estava construindo uma metáfora. Disse que a palavra “descrição” tem uma conotação de concordância do homem, e que o que percebemos deriva de um comando no qual a concordância do homem é deixada de fora.

2 — A atenção é o que nos faz perceber os comandos da Águia como vestígios.

Dom Juan disse que a percepção é uma faculdade física cultivada por todos os seres vivos da terra; nos seres humanos o resultado final é conhecido pelos observadores como “atenção”. Acrescentou que qualquer tentativa de defini-la é perigosa, pois transforma uma realização mágica numa coisa comum. Descreveu a atenção como a utilização e canalização da percepção. Disse que é a nossa maior realização em separado, cobrindo toda a gama de alternativas e possibilidades humanas.

sábado, 30 de abril de 2011

A Observação Silenciosa

Quando falamos da observação silenciosa, referimo-nos a um modo de escutar, uma forma de ver, a qual permite o observar em sua expressão direta e não qualificada. No processo da escuta, você pode descobrir que o observador está sempre julgando, criticando, comparando e avaliando. Este discernimento o leva por si só a uma posição na qual você não está envolvido no percebido. Então, uma sensação de espaço se abre entre sua observação e o observado, suscitando a compreensão de que o percebido surge em você, mas você não está limitado a qualquer coisa perceptível. O silêncio é nossa verdadeira natureza.

Então, o próprio pensamento é a raiz do problema?

Geralmente, conhecemos a nós mesmos nas percepções, nos estados. Nós apenas conhecemos a consciência de alguma coisa, a escuta de algo, etc. Nós não conhecemos a consciência pura sem um objeto.

Pensamentos, sentimentos e sensações são objetos da consciência, e não têm existência sem um sujeito que os observa. Visto que o que percebe nunca pode ser percebido, no momento em que um pensamento ou uma percepção aponta para ele, leva-o ao silêncio, ao ser puro, à consciência sem um objeto.

Então, o que é o que percebe?

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Retornar à Fonte Una

Pergunta: Por que é que nós naturalmente parecemos pensar em nós mesmos como indivíduos separados?

Maharaj: Seus pensamentos sobre individualidade não são realmente seus próprios pensamentos; são todos pensamentos coletivos. Você pensa que você é a pessoa que tem os pensamentos; mas de fato os pensamentos surgem dentro da consciência. Conforme nosso conhecimento espiritual cresce, nossa identificação com um corpo-mente individual diminui, e nossa consciência expande-se na consciência universal. A força da vida continua a atuar, mas seus pensamentos e ações já não são limitados a um indivíduo. Transformam-se na manifestação total. É como a ação do vento - o vento não sopra para nenhum indivíduo em particular, mas para a manifestação total.

P: Como um indivíduo é possível retornar à fonte?

M: Não como um indivíduo; o conhecimento “eu sou” deve retornar à sua própria fonte. Agora, a consciência identificou-se com uma forma. Mais tarde, ela compreende que não é essa forma e segue adiante. Em alguns casos pode alcançar o espaço, e muito frequentemente, pára ali. Em muito poucos casos alcança sua fonte real, além de todo condicionamento.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Apontando o Bastão P/ o Velho Homem

Quando o grande mestre Padmasambhava estava no Eremitério da Grande Rocha, em Samye, Sherab Gyalpo de Ngog, um homem inculto de 61 anos que tinha a mais alta fé e grande devoção pelo mestre, serviu-o por um ano. Enquanto isso, Ngog não pediu qualquer ensinamento, nem o mestre lhe deu qualquer um. Quando, depois de um ano, o mestre decidiu partir, Ngog ofereceu-lhe um prato de mandala, sobre o qual colocou uma flor de uma onça de ouro. Então ele disse: Grande mestre, pense em mim com bondade. Em primeiro lugar, eu sou inculto. Em segundo, minha inteligência é pequena. Em terceiro, estou velho, então meus elementos estão fatigados. Peço que você dê um ensinamento a um velho homem à beira da morte, que seja simples de entender, que possa cortar totalmente a dúvida, que seja fácil de realizar e de aplicar, que tenha uma visão efetiva, e que me ajude em vidas futuras.

O mestre apontou seu bastão de andarilho para o coração do velho homem e deu esta instrução: Ouça aqui, velho homem! Olhe para a mente desperta de sua própria consciência! Ela não tem forma nem cor, nem centro nem borda. Primeiro, ela não tem origem, mas sim é vazia. Depois, ela não tem lugar de permanência, mas sim é vazia. No fim, ela não tem destinação, mas sim é vazia. Esta vacuidade não é feita de qualquer coisa, e é clara e cognitiva. Quando vir isto e a reconhecer, você conhecerá seu rosto natural. Você entenderá a natureza das coisas. Você verá então a natureza da mente, determinará o estado básico da realidade e cortará completamente as dúvidas sobre tópicos do conhecimento.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O Desperto

Quando você está em sono profundo, o mundo fenomênico existe para você? Você não poderia, intuitiva e naturalmente, visualizar seu estado primitivo – seu ser original – antes que esta condição corpo-consciência irrompesse sobre você sem ser solicitada, por si mesma? Neste estado, você estaria consciente de sua “existência”? Não, certamente.

A manifestação universal está apenas na consciência, mas o ‘desperto’ tem seu centro de visão no Absoluto. No estado original de puro ser, não consciente de sua qualidade de ser, a consciência surge como uma onda sobre a extensão das águas, e o mundo aparece e desaparece na consciência. As ondas se levantam e caem, mas a expansão das águas permanece. Antes de todos os princípios, de todos os fins, eu sou. O que quer que aconteça, devo estar presente para testemunhar.

Não é que o mundo não ‘exista’. Ele existe, mas meramente como uma aparência na consciência – a totalidade do manifesto conhecido na infinidade do desconhecido, o não manifestado. O que começa deve terminar. O que aparece deve desaparecer. A duração da aparição é um assunto relativo, mas o princípio é que o que quer que seja sujeito ao tempo e à duração deve terminar e é, portanto, não real.

Você não pode perceber imediatamente que neste sonho da vida você ainda está dormindo, que tudo que seja reconhecível está contido nesta fantasia da vida? E que aquele que, enquanto conhecer este mundo objetificado, considerar-se uma ‘entidade’ separada da totalidade que conhece é, em realidade, parte integral deste mesmo mundo hipotético?

Considere também: Nós parecemos estar convencidos de que vivemos uma vida própria, de acordo com nossos próprios desejos, esperanças e ambições, de acordo com nosso próprio plano e objetivo, através de nossos próprios esforços individuais. Mas é realmente assim? Ou estamos sendo sonhados e vividos sem vontade, totalmente como fantoches, exatamente como em um sonho pessoal? Pense! Nunca esqueça que, assim como o mundo existe, embora como uma aparência, as figuras sonhadas também, neste ou naquele sonho, devem ter um conteúdo – elas são o que o sujeito do sonho é. É por isto que digo: Relativamente ‘Eu’ não sou, mas eu mesmo sou o universo manifesto.

S. Nisargadatta Maharaj

terça-feira, 26 de abril de 2011

A Mente Finita /+ Deva Premal


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A ilusão da mente

O primeiro pensamento a surgir na mente é o pensamento "eu". Todos os outros inumeráveis pensamentos surgem apenas depois do pensamento "eu" e têm nele sua origem. Em outras palavras, apenas depois do pronome de primeira pessoa “eu” surgir, é que os pronomes de segunda e terceira pessoa, “tu” e “ele”, ocorrem para a mente; estes não subsistem sem aquele.

domingo, 24 de abril de 2011

Meditação ou Atenção

A Essência do Budismo

A prática da plena atenção denomina-se trenpa em tibetano, o que literalmente significa ‘lembrança’. Antes que a percepção surja na meditação, o meditador precisa aprender a concentrar a mente, o que é obtido pela prática da plena atenção. Usamos um objeto específico para praticar a plena atenção. Quando esta é praticada por um certo período de tempo, a percepção surge como um produto da plena atenção.

Quando tivermos conseguido fazer isso com certo sucesso, passamos a usar a própria mente como objeto da meditação. Tentamos estar atentos aos pensamentos e emoções à medida que surgem, sem rotulá-los nem julgá-los; simplesmente observando-os. À medida que a observação prossegue, a plena atenção se transforma em percepção. Assim, se surgirem distrações, a pessoa se apercebe delas; se o embotamento ou torpor estiver presente na mente, a pessoa apercebe-se da presença. Com a prática da meditação da tranquilidade, a mente torna-se mais estabilizada.

Quando contemplamos a própria mente e a deixamos em seu estado natural, além da estabilidade mental, deve surgir também uma sensação de clareza. Não basta a mente ter se tornado estável; também é importante haver clareza. Nos ensinamentos Mahamudra, esses aspectos são descritos como ne cha, o aspecto da estabilidade, e sal cha, o aspecto da clareza. Uma mente estável, mas sem clareza, é deficiente. Tanto a clareza mental como a estabilidade precisam estar presentes. Se perseguirmos esse objetivo, mesmo quando surgirem pensamentos e emoções, a estabilidade e a clareza da mente não serão perturbadas.

sábado, 23 de abril de 2011

Ashtavakra Gita

(Ashtavakra Samhita)

Janaka (o Rei) disse:

Como o conhecimento é adquirido? Como a libertação é atingida? E como se chega à dissipação? Diga-me isto, Senhor.

Ashtavakra disse:

Se você está procurando libertação, meu mais querido, fuja dos objetos dos sentidos como do veneno. Beba o néctar da tolerância, da sinceridade, da compaixão, do contentamento e da honestidade.

Você não é nem terra, nem água, nem fogo, nem ar e nem mesmo éter. Para a libertação conheça a si mesmo como consistindo de consciência, a testemunha destes cinco.

Se você permanecer somente repousando na consciência, vendo-se a si mesmo como distinto do corpo, então mesmo agora você se tornará feliz, cheio de paz e livre das barreiras.

Você não pertence ao brâmane, ou ao guerreiro, ou a qualquer outra casta, você não está em nenhum estágio, nem você é algo que o olho possa ver. Você é livre e sem forma, a testemunha de tudo - agora seja feliz.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Auto-Inquirição

Questionador: Mas pedir para a mente voltar-se para dentro e buscar sua Fonte não é empregá-la?

Maharshi: É claro, estamos usando a mente. É de conhecimento comum que a mente só pode ser extinta com a ajuda da mente. Mas a diferença é que ao invés de começar dizendo que a mente existe e que eu quero destruí-la, você começa buscando sua fonte, e quando você encontra a Fonte você vê que a mente não existe. A mente voltada para fora resulta em pensamentos e objetos; voltada para o interior ela se torna ela mesma o Eu Real.

Eu não disse que você deve ficar rejeitando pensamentos. Se você agarrar a si mesmo – ou seja, se você agarrar o pensamento-eu ou ego – e mantiver-se interessado apenas nesse único pensamento, então os outros pensamentos serão rejeitados e desaparecerão automaticamente.

A investigação “Quem sou eu?” significa tentar encontrar a fonte do ego ou pensamento-eu. Então você não deve ocupar a mente com outros pensamentos, tais como “Eu não sou o corpo”, etc. Buscar a fonte do “eu” é um meio de se livrar dos outros pensamentos.

A individualidade é aquilo que está consciente da existência dos pensamentos e da sua sequência. Essa individualidade é o ego ou, como as pessoas dizem, é o “eu”.

Ilusão e Pensamento

Questionador: “ Porque o Ser não pode ser percebido diretamente?"

Bhagavan (Maharshi): “Somente o Ser pode ser percebido diretamente. Embora sejamos o Ser, o pensamento 'Eu sou esse corpo' está ocultando-o. Se abandonamos esse pensamento, o Ser, que está sempre presente com a experiência de todos, irá brilhar." Um verso do Kaivalya Navanitam explica a gênesis desse pensamento. "Por que sua natureza não é determinável, maia (ilusão) é inexprimível. Estão em suas garras os que pensam: 'Isto é meu, eu sou o corpo, o mundo é real.' Oh, filho, ninguém pode determinar como essa ilusão acontece. E ela surge porque falta na pessoa o discernimento para inquirir. "

Se vemos o Ser, o objeto que está sendo visto, não irá aparecer como separado de nós. Tendo visto todas as letras no papel, falhamos em ver esse papel como a base. Da mesma maneira, o sofrimento somente surge porque vemos o que está superposto à base, sem olharmos para a própria base. O que está superposto não deveria ser visto, sem que o substrato fosse visto, também. Como ficamos quando estamos dormindo? Quando estamos dormindo, os vários pensamentos como: "este corpo", "este mundo" não estão aí. Deve ser difícil se identificar com esses estados que aparecem e desaparecem. Todos têm a experiência ,"eu sou sempre ".  Ao invés de dizer, "eu dormi bem", "eu acordei", "eu sonhei", "quando inconsciente não sabia nada", é necessário que a pessoa exista, e que saiba que existe, em todos esses três estados. Se a pessoa procura o Ser dizendo: "Não me vejo", como poderá encontrá-lo? Para sabermos que tudo o que vemos é o Ser, é suficiente que o pensamento eu-sou-o-corpo deixe de existir.

S. Ramana Maharshi

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A Verdade Total /+ Deva Premal


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A Libertação

Em seu estado de perfeição, a Consciência Total
É inconsciente de sua consciência;
Então a consciência se levanta
num gemido de Aum
e o sonho da criação começa.
É consciente de ser,
E exulta nesta condição de ser.
Imersa no amor do estado de eu sou,
Expressa-se na dualidade.
Através da união do duplo aspecto masculino-feminino,
Através dos cinco elementos:
Espaço, ar, fogo, água e terra,
Através dos três Gunas:
Sattva, Rajas e Tamas
Manifesta-se na duração.

domingo, 17 de abril de 2011

Deus é o fim do desejo e conhecimento

Você tem de desaprender tudo. Deus é o fim de todo desejo e conhecimento.

O Supremo é o mais fácil de ser alcançado, porque é o seu próprio ser. É suficiente parar de pensar e não desejar qualquer outra coisa que não seja o Supremo.

No fim das contas, você sabe que não há pecado, não há culpa, nem retribuição, há apenas vida, nas suas transformações sem fim. Com a dissolução do 'eu' pessoal, o sofrimento pessoal desaparece. O que permanece é a grande tristeza da compaixão, o horror da dor desnecessária.

Nenhuma matéria ou mente vem primeiro, porque nenhuma aparece sozinha. Matéria é forma, mente é nome. Juntas elas constróem o mundo. Permeando e transcendendo o mundo está a Realidade, puros ser-consciência-bem-aventurança, sua própria essência.

Verdadeiramente, tudo é em mim e por mim. Não há nada mais. A própria idéia de um 'mais', é um desastre e uma calamidade.

Quando o desejo e o medo se extinguem, os laços que o aprisionam também terminam. É o envolvimento emocional, o padrão do gostar e não-gostar, ao que nós chamamos de caráter e temperamento, que cria os laços que atam. Não tenha medo da liberdade, do desejo e do medo. Ela lhe permite viver uma vida tão diferente de tudo o que você conhece, tão mais intensa e interessante, que verdadeiramente perdendo tudo você ganha tudo.

sábado, 16 de abril de 2011

A Simplicidade do Ser


Como posso recuar de minhas emoções, desejos e agitações de modo que eu possa manter-me na Pura Consciência?

Você não pode manter-se na Pura Consciência porque ela é o que você é. O que ela é e o que é você é a luz em toda percepção. Todos os objetos, todas as percepções dependem da luz, sua natureza real. Não podem existir sem perceber a luz. Eu chamo sujeito final a esta luz em todas as percepções. Está claro que não tem nada a ver com o sujeito, o “eu”, o qual passa por nós mesmos na relação sujeito-objeto. A percepção existe apenas porque você, luz, Consciência, sujeito final, ou como o quiser nomear, é.  A percepção aparece e desaparece em você.

Não Pensar

S. Nisargadatta Maharaj
M = Mestre
D = Discípulo

M: Sábio filho, abandone a mente – o atributo limitador que origina a individualidade, assim causando a grande enfermidade de repetidos nascimentos e mortes – e realize Brahman.

D: Mestre, como se pode extinguir a mente? Não é muito difícil? Não é a mente muito vigorosa, inquieta e sempre vacilante? Como se pode renunciar à mente?

M: Abandonar a mente é muito fácil, tão fácil quanto amassar uma flor delicada, tirar um fio de cabelo da manteiga ou piscar os olhos. Não tenha dúvida. Para um buscador resoluto, senhor de si e não enfeitiçado pelos sentidos, que pelo intenso desapaixonamento se tornou indiferente aos objetos externos, não pode haver a menor dificuldade em abandonar a mente.